Arquivo diários:24 de abril de 2015

Cultura e resistência no Ipadê da Juventude 2015

A ideia de realizar um encontro de juventude surgiu no Terreiro de Chão Batido de 2012, com o objetivo de, através da apropriação tecnológica e midiática, registrar os saberes e fazeres ancestrais.  O Terreiro de Chão Batido é um encontro inter geracional que acontece no território CoMPaz, onde os mestres da cultura popular são convidados a compartilhar seus saberes com crianças, jovens e adultos, através da contação de histórias, danças, músicas, rezas e ritos. A primeira edição do Ipadê da Juventude teve como público principal os jovens quilombolas e indígenas. Na segunda edição, o público foi ampliado, contemplando a diversidade da juventude: quilombolas, indígenas, estudantes, participantes de organizações e movimentos sociais, moradores de áreas urbanas e rurais e pessoas interessadas na temática.

abertura ipade

Abertura do 2° Ipadê da Juventude / Projeto Abayomi – uma história contada entre tecidos e dedos

Com o mesmo objetivo do Ipadê da Juventude, surgiu o Projeto Abayomi, contemplado como Prêmio do Edital Ideias Criativas da Fundação Palmares de 2014. Neste projeto foram propostas oficinas de comunicação, tendo como instrumento principal o audiovisual para que os jovens, de forma simples e com ferramentas de fácil acesso, como celulares e câmeras compactas, associados ao uso de softwares livres de edição de vídeo, pudessem compreender o processo de registro de fazeres e saberes como um ação de resistência e valorização cultural. Apropriados desses conhecimentos, os jovens podem ser agentes da salvaguarda das memórias em suas próprias comunidades.

As oficinas propostas no Ipadê da Juventude trazem para o centro da construção do conhecimento técnicas como bioconstrução, pintura mural, música e dança. Todas as atividades foram permeadas pela oficina  de apropriação tecnológica do Projeto Abayomi, que prevê a produção, criação e difusão alternativa de conteúdos multimídia, estimulando ações de fortalecimento e circulação de conhecimentos de cultura digital e memória. Os participantes organizaram-se em grupos pra fazer o registro das atividades propostas no Ipadê da Juventude. Foram orientados por Patricia Pinheiro e Vania Pierozan a planejar as etapas de criação do vídeos, desde a coleta de imagens e áudios, pensando nas questões técnicas e políticas que envolvem a comunicação através do audiovisual. O resultado dessa oficina foi a produção de 5 vídeos, que serão conteúdos de blogs e redes sociais das instituições e dos jovens participantes. Os vídeos foram editados  em kdenlive, software livre de edição audiovisual.

oficina apropriação tecnológica

Apropriação tecnológica e registro da memória

conversa apropriação tecnologica

Mostra dos vídeos produzidos no encontro

Raquel Dvoranovski e Clara Freund, da Senda Viva, orientaram os participantes sobre bioconstrução através da criação de um forno de barro. Essa oficina foi linda e intensa. Pra construir o forno foram utilizados os seguintes materiais: tijolo refratário, tijolo de barro, areia, açúcar, palha, terra e água. Os fornos de barro são uma tecnologia ancestral, e construídos assim de forma coletiva, carregam a força da unidade dos povos. Pra amassar o barro, muita cantoria, dança, alegria e chuva de luz!

Pisar o barro juntos fortalece nossos laços de solidariedade e irmandade

Pisar o barro juntos fortalece nossos laços de solidariedade e irmandade

 

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Música e dança também tiveram lugar de destaque no encontro. John Silva compartilhou seus conhecimentos poéticos e musicais através da proposta de composição musical coletiva.  De forma descontraída e bastante pedagógica, os participantes foram estimulados a expressar como gostariam que o mundo fosse no futuro. Esses desejos foram transformados em música, que já foi usada como trilha sonora nos vídeos criados na oficina de apropriação tecnológica.

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O resultado da oficina de composição musical foi uma canção de autoria coletiva sobre gratidão

Teve também  roda de Maculelê. A educadora de dança Daisy de Souza Reis contou a história do surgimento dessa dança e colocou os participantes pra se mexer ao som do tambor e dos bastões. O contato com elementos da cultura africana são um aspecto importante nas atividades propostas no Território da CoMPaz.

maculele

Na oficina de maculelê conhecimento sobre as raízes ancestrais da dança

Na oficina de Pintura Mural, coletivamente definiu-se por fazer o registro das atividades do Ipadê, representando a dança e a música através da roda de maculelê e a valorização da alimentação, através da representação do forno de barro. O resultado ficou bastante interessante e colorido, as paredes da Casa Verde agora estão marcadas pelas nossas sensações e representações artísticas do que representou o encontro para os participantes. Vania e Yasmine orientaram essa atividade.

base

pintura da base

forno

memória do evento

final

resultado coletivo

estrutura imopressoes

O foco principal das oficinas não é uso da tecnologia em si, mas a salvaguarda do patrimônio imaterial e identidade cultural dos povos através da utilização de ferramentas de registro e difusão de conteúdos que valorizem a memória ancestral, os saberes e fazeres dos mestres da cultura popular.

Veja os vídeos de registro das oficinas, produzidos pelos  participantes do Ipadê da Juventude 2015 / Projeto Abayomi .

Apropriação Tecnológica

Oficina de Bioconstrução

Oficina de Maculele

Composição Musical

Oficina de Pintura Mural

PQD – Rodas, Trocas e Toré

Após uma inspiradora oficina técnica de comandos básicos e Baobáxia, todos os presentes participaram de uma grande roda com a Secratária da Cidadania e Diversidade Cultura, Ivana Bentes, e outros parceiros institucionais da Fundação Banco do Brasil. Logo de cara, Ivana ressaltou a importância da Casa de Cultura Tainã e Rede Mocambos  “É uma alegria ver esse clima vibrante que a Casa de Cultura Tainã te  m! A Rede Mocambos foi uma inspiração para os Pontos de Cultura e articulação nacional da rede.”IMG_8485

No decorrer da conversa, foram feitas críticas, dadas sugestões e reconhecimento das ações positivas do Ministério da Cultura. TC Silva encerra a roda com grandes palavras “O Sistema tem que ser mudado, ele não funciona mais porque é engessado, cruel, não reconhece a própria riqueza cultural. Nós acreditamos na construção do diálogo, e quando a gente fala sobre Baobá, a gente fala sobre acolhimento, respeito pelas tradições. Não importa como o mundo é lá fora, aqui nós criamos um mundo do nosso jeito. Eu confio em você e espero que você confie em mim. À nós só cabe fazer isso, um mundo de laços de maneira sincera para todos!”

IMG_8544Após uma merecida noite de descanso, todos se reuniram cedo em uma roda onde Jaborandy Tupinambá abriu o quarto dia de Pajelança Quilombólica Digital com o Toré, dança ritual indígena. Os presentes fizeram um vibrante círculo em torno do IMG_8536Baobá e dos tambores e em meio a danças e boas energias, receberam e trocaram sementes criolas de várias espécies e de diversas regiões do Brasil, em um ato simbólico de germinação da amizade e fortalecimento dos laços. Um canto em tupi foi entoado pela roda “Meu papagaio seu canto é bonito e veio tão lindo do lado de lá! Pisa, pisa, quero ver pisar. Terreiro dos índios de Ororubá!”

IMG_8573Em paralelo a isso, TC Silva, Rasta Jorge, Mestre Alceu e Vince conversavam com Takashi Tome, gerente de projetos da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa e Janaína Lemos do Centro de Tecnologia e Inovação, onde discutiam futuras parcerias envolvendo instalação de fibras óticas e a construção de um data center da Rede Mocambos e dos movimentos Parceiros na Casa de Cultura Tainã, visando o fortalecimento das lutas, da memória e da comunicação entre os nós dessa rede.